Pesca Cultural


CRÔNICAS HOSPITALARES

Minha mãe caiu e quebrou o fêmur. Quinze dias no hospital. Poderiam ser longos. Revezamos eu, irmãs e pai. No segundo encontrei em cima do criado-mudo junto ao telefone um livro que minha irmã deixou para irmos fazendo o tempo encurtar. Minha família foi sempre e ainda hoje é de muitas leituras, nem tanto assim sou eu. Ao trocar “o plantão” contávamos o que havíamos lido. Diminuímos dessa maneira a tensão do ambiente hospitalar.  Alguns dias li para mamãe que disse baixinho, quase sem voz ainda, abatida: “se eu dormir no meio você não vai ficar chateada?”. E ela sorria entre as linhas e dormia em outras. Acordava e voltava a sorrir. E o dia passava e eu contava os minutos para voltar no próximo e continuar as leituras. Uma irmã lia na ordem, a outra em ordem aleatória. Papai escolhia algumas do seu tempo, outras não. Eu comecei de hoje para ontem, lendo o livro do fim para o começo.

Um apanhado de crônicas curtas ajudava muito porque entre leituras a porta se abria. Entrava a enfermeira de cabelo liso e esticado para não deixar nenhum fio de sua presença ao sair. Outra lia corrido porque vinha o fisioterapeuta simpático que explicava tim tim por tim tim cada área do corpo que movimentava. A turma da cozinha e limpeza vinha sempre com pressa e saía antes de eu pausar a leitura. E com médicos longas conversas, palavras difíceis e técnicas, próprias da sua linguagem. Voltava depois às crônicas que traziam estórias de muitas fases diferentes de nossas vidas, do tempo de meus avós, pais, meu tempo e de filhos... E autores diversos...

As Cem Melhores Crônicas Brasileiras. Joaquim Ferreira dos Santos. Editora Objetiva.
Na Livraria Cultura o livro custa R$ 48,90 (07/08/2007) -
www.livrariacultura.com.br



Escrito por maria bulhões às 14h14
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NUM DIA FRIO

 

Num dia frio em São Paulo. Num final de tarde de um final de semana... Sem dinheiro? E daí... São Paulo tem pra todo bolso e com direito a surpresas do início ao fim. Outro dia até, uma amiga minha, mineira ela, Renata, que veio pra São Paulo não faz muito tempo, mudou pra cá. Me disse ela, feliz da vida: quanta cultura tem por aqui, quanto programa. Tô me divertindo! Não tenho tempo pra não aproveitar. São Paulo é tudo de bom! E incrível, ela não se importou com trânsito, violência, poluição, nada... Nesse dia, final de tarde de virada cultural tinha ainda mais. E estava difícil de escolher. E fomos lá - Teatro São Pedro, lá na Barra Funda. Estavam três tocando. O piano, o cello e o violino. Um som contemporâneo, complicado, difícil - para mim. Três músicos trabalhando os instrumentos impecavelmente. O som da música atravessava as paredes do tempo, de tantos tempos que se passaram na sala de teatro que carrega no reboco a memória. E a surpresa desse dia, sem preço, de um som contemporâneo: a imagem de seu autor. Histórica. Homenageado pelos 80 anos de trabalho, Osvaldo Lacerda (no centro da segunda imagem), carrega em sua trajetória a música de tempos que ainda não vieram e nem sei se um dia virão.

Além de seu tempo ele está, sua obra. E a oportunidade veio e ficou nesse clique acompanhado de mais uma, mais uma rica surpresa. Em São Paulo você pode pegar o metrô e ter um "colírio" para seu ouvido acompanhado de duas surpresas na caixinha da memória. Amaral Vieira, também compositor, ao lado com o trio de músicos desse nosso tempo. Pra quem não ouviu, ficam as imagens...

Paulo Gazzaneo, piano.  Eduardo Bello, violoncelo.  Liliana Chiriac, violino.

Homenagem do São Paulo Arte Trio ao 80° Aniversário de Osvaldo Lacerda.         


Teatro São Pedro - www.teatrosaopedro.sp.gov.br

Fotografias: Ines Correa - www.inescorrea.com.br



Escrito por maria bulhões às 12h47
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